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Um conto de Edelson Nagues

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Lia e Bia  Como se não bastasse eu ter que aguentar essa safada da Bia transando embaixo do meu nariz, literalmente, e ainda por cima com esse odiento do Gaspar, agora descubro que a cretina está armando pra mim, querendo me matar . Sim, me matar, porque a cirurgia vai sacrificar uma de nós duas, embora ela negue isso. Mas tenho certeza de que essa dissimulada está dando um jeito pra que a cabrita expiatória seja eu, lógico. “O médico disse que os novos exames mostraram que dá pra separar os órgãos sem prejuízo nem pra mim nem pra você. Menos o coração... Um deles é atrofiado e não aguentaria sozinho a carga de um corpo. Por isso, uma de nós vai precisar de um transplante.” Pois é, transplante... É aí que mora o perigo. Adivinhe quem vai depender da porra de um coração novo. E o doador, como encontrar? E ainda tem o risco de rejeição... Por isso ela tratou logo de seduzir o idiota, dono dessa espelunca falida com o irônico nome de Gran Circo Mundial, que vai bancar a operação. Os d...

Uma ficção de Sérgio Tavares

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Humanos     Para Alberto Bresciani     Enfim, o mar. A imensidão metálica predominando além da faixa branca. Desnudo meus pés e sinto a areia morna, a brisa que veleja minha roupa até a arrebentação. Tiro a máscara e me sento. Aspiro o frescor salino. As ondas cabeceiam o raso, derramando franjas de espuma que ardem meus dedos. Fixo a vista na maré e, de repente, noto uma mancha forçando o elástico da superfície marinha. Uma dança de duas baleias a poucos metros de mim. Fantasmam suas toneladas no turvo profundo sem gravidade, que torna colossos lentos e leves. É um momento mágico de retomada representado na liberdade nunca subtraída daqueles animais. O mundo não era um perigo, pois lhes faltavam humanidade. Então ouço passos. Olho ao redor e vejo que pessoas se aproximam, sem proteção. Formam uma corrente, lado a lado do meu eixo, braço a braço do meu corpo. Absolvidos do distanciamento, observam a cena, mútuos e fascinados. ...

Um conto de Leonardo Almeida Filho

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O Capador   Pode perguntar por aí a quem quiser e vão lhe confirmar. Todo mundo dessas bandas conhecia o sujeito. Conhecia de vista, pois Zé Firmino era homem de poucas palavras, um bruto com pouca história. Pela profissão que tinha, e que todos comentavam ao pé da orelha, com medo, até que se mostrava muito, pois era sempre possível encontrá-lo no bar do Peixoto, na esquina da 11 de Setembro. Não estivesse por ali, era só bater na casa dele. Não tinha erro. Não se escondia de ninguém. Mas isso foi antes, bem antes de ele ganhar fama e se tornar lenda por estas bandas. Desapareceu, virou um fantasma que metia medo em todo mundo. Seu paradeiro tornou-se um mistério. O que se sabe é que ele levou muita gente para o outro lado. Era um cabra frio. Dois olhos gelados que quando grudavam na gente dava um arrepio ruim. E é curioso notar que ele até que não tinha a cara feia, era bem apessoado, imberbe, traços finos, quase femininos, o que aumentava ainda mais a curiosidade: de onde vi...

Dois contos de Henriette Effenberger

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Salada de abacate     O abacate, abacado ou pêra-de-advogado é o fruto comestível do abacateiro, que é uma árvore da família da laureáceas, nativa do México ou da América do Sul (Persea americana), hoje extensamente cultivada — incluindo nas Ilhas Canárias e na ilha da Madeira — e muito popular no Brasil. O abacateiro é uma árvore elegante, de caule pouco reto, e que em estado silvestre chega a vinte metros de altura.        Menino, tinha aparência frágil. Olhos azuis, inteligentes e doces, contrastavam com o espírito guerreiro, sempre pronto a buscar o que lhe interessava. E eram muitas as coisas que atraiam seu interesse. Todas elas, de alguma forma, ligadas à arte. Possuía amigos inseparáveis, por intermédio dos quais burlava a atenta vigilância do pai sempre severo. A mãe, ao contrário, alegre e comunicativa, fazia-se entender perfeitamente pelo menino, que tinha gostos tidos como femininos. Foi para a mãe que leu o primeiro poema, escrito ass...

Um conto de Mário Baggio

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QUANDO EU VOLTAR A SER NADA Hoje pela manhã cortei fora minha orelha esquerda e a joguei no lixo. Saí para trabalhar. Na rua encontrei um conhecido, que estranhou o curativo e perguntou o que houve. Disse-lhe que tinha batido a cabeça no armário da cozinha. Pedi um café no bar e o atendente me olhou com pena e quis saber onde eu arrebentara a cabeça. Respondi que fui esquiar no fim de semana e bati de lado numa árvore.  Quando cheguei ao escritório, todos me olharam com espanto e logo se acercaram de mim, perguntando se eu precisava de algo, o que tinha acontecido etc. Disse a eles que fui diagnosticado com um tumor maligno no lado esquerdo da cabeça e que em poucos meses iria morrer. A secretária do andar não disfarçou uma lágrima quando me deu um beijinho na bochecha.  Todos estavam solidários com minha desgraça e me trataram com muita consideração. Achei bom ser o centro das atenções e o principal assunto das conversas. Sei que isso vai durar uns dias e depois tudo voltará ...