Quatro poemas de Lia Sena
ensejo sobre o rio que passa no leito da memória lembranças são peixes líquidas são as gentes que nos perpassam a história e sobrevivem às vezes pequenas gotas ou cachoeiras. líquido é esse tempo de desterro despertencimento e anseio do que antes que entardeça dure do que doure a pele em pleno inverno do que salte aos olhos e corra livre embora ninho embora sempre. viva não é porque trago nos olhos essa faca atravessada depois do último susto que esquecerei as pedras polidas durante os longos anos nem a blasfêmia salpicada a pó nos meus cabelos vincará de ódio cego a pele calma do meu desassossego. nem segredo é que ainda vivo — e anseio. ousar não falar do medo da mórbida curva do desassossego dos números. não falar das dúvidas dos ódios dos discursos idiotizados não falar da turva sombra que paira do que se espalha e invade. não falar do impasse do surreal disfarce de números fatos avisos. não perder...