Sete poemas de Nuno Rau
ARCHIVO MORTO (1978 – 2020) Encontro (1978) Nas varandas do seu dia existe um ser que se ressente, eu, que nem de mim posso dizer o exato, se passo triste o coração me dói, como sempre, se vou insípido a solidão me rói as entranhas, e por talvez haver o negro tempo eu olho o nada e nada me permito. São relíquias as palavras que eu não disse, e no entanto seu sentido e conteúdo se perderam na vitória que cedi ao meu oposto, o morto quase sem nexo nos traços de seu rosto. Nas varandas do normal existe um ser que então desaba no tino dos seus erros, no limo dos seus dedos dissecados pelo tédio. As palavras são duras, eu sei, mas suportá-las é leve, e breve o seu momento. Se nas varandas deste inferno existe um ser que se reprime, novos corpos se vão do outro lado e o sentimento, que não define concreto ou abstrato, resolve-se por qualquer desabafo. Enquanto este ser não se decide, estrelas ensaiam ...