Cinco poemas de Iara Maria Carvalho
Deslembranças Um século depois, foi-se o sítio. Memórias de um século, eu não tenho: nem de minha vida. O que as fotografias antigas me dizem são da minha avó e eu, mulheres de pouca estatura, mas sorriso vasto, eu carregando um matinho sem graça na mão. Redes sem varandas na sala, sonhei noite passada que essa era a lembrança que eu deveria ter. Os copos de alumínio sobre o pote, o cata-vento, sempre um cachorro alegre preso numa árvore que um dia já chorou. Os primos, a vida, as pedras do Penedo da minha infância, rocha insondável e telúrica, impossível de sumir por trinta -dinheiros. Venderam o sítio, mas as chinelas dos meus avós ainda se arrastam por lá. Apanha Do paiol recém- amanhecido, ia e vinha a apanhadora de algodão com seu avental florido. A bravura dos capuchos em suas mãos de linho era inerte e limpa: sonhava espe...