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Dois contos de Krishnamurti Góes dos Anjos

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Efeito Borboleta Ele abre a loja preocupado, agoniado, aflito. Tem de pagar um extra ao contador que faz artimanhas para sonegar os impostos mensais da loja. Precisa também ter em caixa dinheiro vivo para eventuais propinas para a fiscalização da Prefeitura ou da Secretaria da Fazenda. Tem de ser aos poucos. Vou agora mesmo remarcar o preço daquelas bolsas Louis Vuitton fabricadas no Paraguai. Cem reais em cada uma, para começar, está razoável. Duas horas depois, uma madame, muito afetada e escandalizada com o valor que lhe pedem pela bolsa, paga assim mesmo, exige nota fiscal e sai da loja pensando: Vai sobrar mesmo para a diarista. Peço a ela paciência. Digo que as coisas estão difíceis, que estamos fazendo das tripas coração para mantê-la lá em casa. E ainda peço e recomendo discrição absoluta. No fim do mês, acertamos tudo. A Maria, que está ansiosa na casa da patroa esperando o pagamento da semana, ao saber do adiamento, primeiro fica chateada e depois, aborrecida, se atrapalha ...

Três minicontos de Geraldo Lima

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ASSIM, DO NADA A duas camadas de tecido abaixo da pele negra, sentiu o motor da máquina-corpo falhar. A disritmia. O corte brusco no bombeamento de combustível através da malha de veias. A fisgada, não de peixe, mas de faca que penetra aguda e tensa.  Queria duvidar: cessar assim, sob sol matinal, o pulsar forte de todos os dias? O pulsar sanguíneo, ininterrupto? Pois não estava de pé há anos, numa demonstração de vigor e saúde esse tempo todo? Árvore frondosa, milenar, que não tomba nunca – Baobá invencível pelo tempo. Até uma certa arrogância, de pretensa eternidade, nesse modo de viver. A esposa, mesmo pregando no deserto, alertava sempre, não facilita, com saúde não se brinca.     Ainda há pouco havia planejado uma série de ações para os próximos dias, tal o estado de excitação e energia que lhe tomava o ser. Bebeu uma xícara de café bem quente e acendeu um cigarro. Ah, não poderia haver prazer maior que esse. Fuma lá fora, a esposa lhe pediu. Então abriu a ...

Quatro minicontos de Claudine Duarte

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FERIADO Escutou a brincadeira das crianças pela janela aberta. Memórias coloridas avançaram em rodopios, desbotadas. Misto de sol, poeira e um quase estupor. Arrancou a gravata e jogou os óculos sobre os papéis  —  talvez festejassem nuvens. Empurrou a gaveta, pesada. Espreitaria gargalhadas, ainda não era a hora de morrer. PORTA-RETRATO Ele disse que voltava e se foi num dia de sol. Ela mantém o guarda-chuva fechado e inventa pequenos milagres. Ele deixou seus livros, embalados. Ela usa o vestido vermelho e retira o pó das caixas, empilhadas no meio da sala. Ele não gostava do meio-dia dos domingos. Ela queria tanto uma foto dele... uma em que tivesse os olhos abertos. RESCISÃO Certo, você disse. Certo, eu respondi. Você nem abriu a porta. Nunca foi um lugar. Nunca foi uma data. Nunca, foi assim. LIMIAR Ela ficou sozinha na livraria, ouvia estranhos. Um poema e dois contos depois, vibrou um sonho. Tel...