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Um conto de Mário Baggio

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QUANDO EU VOLTAR A SER NADA Hoje pela manhã cortei fora minha orelha esquerda e a joguei no lixo. Saí para trabalhar. Na rua encontrei um conhecido, que estranhou o curativo e perguntou o que houve. Disse-lhe que tinha batido a cabeça no armário da cozinha. Pedi um café no bar e o atendente me olhou com pena e quis saber onde eu arrebentara a cabeça. Respondi que fui esquiar no fim de semana e bati de lado numa árvore.  Quando cheguei ao escritório, todos me olharam com espanto e logo se acercaram de mim, perguntando se eu precisava de algo, o que tinha acontecido etc. Disse a eles que fui diagnosticado com um tumor maligno no lado esquerdo da cabeça e que em poucos meses iria morrer. A secretária do andar não disfarçou uma lágrima quando me deu um beijinho na bochecha.  Todos estavam solidários com minha desgraça e me trataram com muita consideração. Achei bom ser o centro das atenções e o principal assunto das conversas. Sei que isso vai durar uns dias e depois tudo voltará ...

Três poemas de Mário Baggio

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Informe da situação Fiquei sabendo que perguntaste por mim. Pouco te posso contar, embora não me faltem recordações. De amor recolhido me afogo. De solidão, transbordo. Ainda sofro com o inverno, e só o sol é capaz de me dar alguma alegria. Às vezes, quando me acumulo de palavras, chateio meus amigos com minha verborragia. Para conselhos, prefiro o espelho. Deixei de chamar por teu fantasma. Estou perigosamente calmo. Mudei de casa, troquei de carro, comprei um cachorro. Enchi milhares de folhas com as letras, palavras, frases que me assaltam nas noites de insônia. Como tu podes ver, alguma coisa mudou. Ah, ia me esquecendo: voltei a sonhar. Hoje tenho tudo de quase nada, que é o mais perto que se pode chegar de ser feliz. O que te posso dizer é: entre mim e ti — guarda segredo, por favor! — o único que me faz falta de verdade são os beijos. Os teus. O barraco da Ceição Quatro cômodos num só ...