Dois contos de Adriano B. Espíndola Santos
REDENÇÃO Olhou para trás, num lampejo profundo de saudade, enquanto a mãe, arriada ao chão, chorava. O pai, pouco caso, ares – só ares – de indiferença, virou-lhe o rosto. Então, o milagre aconteceu: uma lágrima, até então contida, caiu. Splaft! A gota, na terra batida, poeira espalhou. Ressoou a imensidão, naquele silêncio sem fim; sem teto, chuva ou comida. Pegou a todos de surpresa. Olharam-se. Abraçaram-se como nunca. Ainda assim, agarrou seus trocinhos, meia dúzia de roupas, determinado e partiu: o elo, o cordão umbilical; a vida compartida, raramente vívida… Ninguém mais soube do seu paradeiro. Nem mesmo ele. Pôs-se a brincar, perdidamente, por aí, ao léu, com os seus sonhos mais íntimos. Redenção. ENCARRILHADA À BRASILEIRA Topada lascada no pico do meio-dia. 37º C. Centrão. Chamboque extirpado, na grosseria. Pululação generalizada. Nervos ouriçados, já em frangalhos. Coração latejando na ponta do pé, esmaecido de aflição antiga,...