Três poemas de Matheus Arcaro
Receita Pra fazer poesia, é preciso mastigar a palavra e sorrir com as sílabas entre os dentes ensanguentados. É preciso lambuzar a palavra de silêncios e saltar com ela a tiracolo do precipício mais alto do interior de si. Pra fazer poesia, é preciso prostituir a palavra a ponto de canonizá-la. Segurar a palavra pelo rabo e, assim que ela gritar grosso, soltá-la no vácuo da lógica. É preciso furar as palavras até que se derramem os sentidos. Todos, um a um: esturricados. E, na poesia, só ficam as palavras teimosas. As palavras com recheio. As palavras com o gosto vermelho da vida. Sou crente Creio na incompletude, no vão entre as verdades, na fragilidade dos juramentos. Creio que lembrança e imaginação trocam fluídos corporais. Creio no sistema solar que existe em cada carícia. Em corpos nus suados em transfusão de potências. Creio que os milagres moram...