Um poema de Jorge Elias Neto
OS OSSOS DA BALEIA I Minha terra é uma ilusão da linguagem. Tenho de meu esse rastilho de palavras que pressinto atadas aos calcanhares. Se o desfaço, perde-se o encantamento das vivências cerzidas. Sei que as mãos ensaiam obscenidades entre dois espelhos. Quero mesmo criar algumas reentrâncias na estrutura dos olhares. Mas olhos extraviados não ardem no lugar comum em que me perco… II Os espaços se desdobram, esticam-se oferecidos; e vão se alinhavando, precisos, retocando com lembranças o reto da vida. III Dou conta de minhas cicatrizes; e são bem humanas: com cheiro de menstruação e defunto. Para os crentes, desejo o reino dos Céus. Para mim, a realidade. Sou um desencontrado; Não me cabem subterfúgios. IV Percorro com a língua as bordas adocicadas do infinito. (açúcar na taça de marguerita) Diz o psicanalista: “ É necessária a subjetivação da morte” (Os antigos fechavam com açúca...