Seis poemas de Marina Ruivo
De ponta-cabeça Rudeza simples devasta a alma, Devora-a, sem rasto de enigma. E nós seguimos e cantamos, Mesmo sem razão. É Deus que nos vê, hoje é sábado, Sem bagunça no céu, faz favor. Ele arma um arco-íris, quer a paz, A que vem do trabalho dos anjos, Os mesmos que pisoteamos. É Deus que nos vê do alto, Silêncio no céu, faz favor. Chegamos de todas as partes, Queremos acabar, depois nos esticar E não ter rede que nos sustente. Queremos ver o céu ceder. Mas Deus ainda nos vê, Pede calma, faz favor. E eu quero estar no céu com vocês, Viva – e não ascendida como anjo. De lá não quero ruídos, silêncio, Nem mesmo a música dos anjos. Venha a música da cópula, a da alma, A que chega aos pés e os faz dançar, A que ninguém ouve. Deus está lá ainda, e me vê. Pede inércia, por favor. Súbito, o sal, a fúria e o berro, São os anjos em marcha. Vêm num exército, lançam flechas, Me perfuram a carne e o sangue verte, Meu flanco esquerdo deter...