Cinco poemas de Paulo Rodrigues
CAFÉ PRETO as mulheres juntavam cuidados e saudades, nas fotos antigas. dois meninos brincavam no meio fio, pintado de cal; escoltados pelos olhos das formigas. os vingadores desceram do carro atirando nos inimigos, que estavam na rua. os meninos tiveram as camisas atravessadas pelas balas. a ambição escorrega nas lágrimas, de uma das mães. a outra ficou no chão olhando para o sangue na asa da xícara. MISTÉRIOS a Travessa do Tamarineiro me invade como o sol invade o broto, antes da flor. como invade a explosão antes do cheiro do caju; a nódoa aberta na fotografia da sala. a Travessa do Tamarineiro exala o cheiro forte da vida. eu sou o círculo no lado avesso, do abismo. ENTENDA-ME OUTRORA entre o almoço e o café da tarde perco a esperança e duas unhas, mas piso firme nas pedras. devagar, passo a mão nos móveis da sala. o intolerável também é poeira. BOPE corto o pelo dos pés no batente; a porta de dentro parece fechada. uma lag...