Postagens

Cinco poemas de Edelson Nagues

Imagem
Estio Quando a palavra gera na boca [sobre o solo rachado da língua] o cascalho do silêncio, as engrenagens de um tempo de estio estrangulam metáforas e risos entredentes. Urbe A cidade, espessa [sístole e diástole]: entropia urgente. Motores e corpos latejam desejos no fumo dos becos. Há ranger de ferros, de ossos e de dentes na junção dos díspares. Um olhar caótico depara o concreto que empareda o medo. As palavras-pássaros jamais se capturam nas gaiolas-mentes. E bocas vorazes engolem silêncios e pastéis de vento. Frêmitos no sexo: um vômito cíclico na pétala aberta. Átimos de dor reprisam-se em seus eternos fragmentos. E nenhuma placa aplaca o desnorte da turba que sofre. A cidade-esfinge: máquina que mói putas e poetas. Caudal Singro o rio multifário das verdades ocultas, das hordas dissimuladas desses homens absurdos...

Quatro poemas de Luiz Otávio Oliani

Imagem
REVELAÇÃO as coisas ocultam-se meio aos homens  o que seriam? objetos? sensações? ideias?  o poeta arrisca  gostar de inutilidades apanha um cisco escreve soubesse respostas, estátua seria    RESGATE a Antonio Carlos Secchin como posso resgatar o que não existe em mim? ao beijar a solidão eu me dispo por inteiro na inútil tentativa de ser Deus por um minuto   A CASA E O TEMPO a Celi Luz não mais o arroz doce da panela da vó não mais o latido do Crioulo não mais o velotrol a pipa o pião operários demoliram o casarão em que nasci se tudo são ruínas do meu ego, o tempo foi feroz me destroçou em lascas da memória   TERESA e agora Teresa? meu mundo ruiu, o bule entornou... café derramado, toalha manchada. com a chave nos dedos, cadê solução? a porta fechada, a casa sem água... o forno sem torta, a rua com lixo... se você cantasse o tango argentino!... se você toc...

Três poemas de Anna Clara de Vitto

Imagem
the crew would have kept silent não, a tripulação não teria dito nada, uma palavra sequer sobre carma coletivo certifiquem-se de ler o cartão com instruções sobre as saídas de emergência nada: luzes apagadas de súbito entretenimento a bordo e o filme mental malfeito certifiquem-se de afivelar os cintos de segurança enquanto o sinal luminoso estiver aceso nada: nem máscaras de oxigênio nem bagageiros abruptamente abertos atenção: este poema é uma caixa-preta a única pista sobre o trágico mergulho de um malabar metálico nada: bye bye, Miss American Pie engolida com a comida sem gosto e o final do livro por ler é doce morrer no ar? prólogo para a mulher sem mãos a poeta tem pés tão diminutos quanto um epitáfio e mãos pequenas de quebrar louças a mulher sem mãos espreita as fendas das horas espera a mínima distração a poeta quer um beijo do seu homem: não pode ter um homem quer um be...