Postagens

Sete poemas de Luís Perdiz

Imagem
VENTANIA pelas florações do milagre pelos órgãos do universo pela paixão pré-histórica pelas espécies das luzes a árvore dança irriga a carne dos deuses e o sangue do sol avigora o vulto da onça umedece a força feminil dos frutos em sua adolescência boreal entre pétalas viajantes carrega a cura da própria voz ESTADIA sempre na sua casa os vitrais se entrelaçam as teias desnudam o tempo as peles se dissolvem meu alicerce mais valente assiste o horário PLAYGROUND o que mais me relevava naquele playground vazio era o silêncio igual ao meu infância fantasia atravessada merthiolates colos contrastes amigos imaginários todos eles filhos únicos ensimesmado pressentia sons de macondo outras partes longas indefinidas longe do baile de minotauros LENDA juntos no fim dos tempos povoado por guepardos e mediterrâneos...

Quatro poemas de Lia Sena

Imagem
ensejo sobre o rio que passa no leito da memória lembranças são peixes líquidas são as gentes que nos perpassam a história e sobrevivem às vezes pequenas gotas ou cachoeiras. líquido é esse tempo de desterro despertencimento e anseio do que antes que entardeça dure do que doure a pele em pleno inverno do que salte aos olhos e corra livre embora ninho embora sempre. viva não é porque trago nos olhos essa faca atravessada depois do último susto que esquecerei as pedras polidas durante os longos anos nem a blasfêmia salpicada a pó nos meus cabelos vincará de ódio cego a pele calma do meu desassossego. nem segredo é que ainda vivo —  e anseio. ousar não falar do medo da mórbida curva do desassossego dos números. não falar das dúvidas dos ódios dos discursos idiotizados não falar da turva sombra que paira do que se espalha e invade. não falar do impasse do surreal disfarce de números fatos avisos. não perder...

Seis poemas de Luiz Carlos Quirino

Imagem
Era aquele tempo em que as mães sacrificavam seus filhos à noite não podíamos dormir por medo de sermos devorados a arte continuava morta deus, desaparecido e era difícil caminhar pelas ruas tomadas por roseiras sem cortar os pés ou avistar um cometa daí a magnitude do fracasso transfigurava-se em tímida alegria Era aquele tempo em que as mães educavam seus filhos à noite começávamos a colher (em meio aos cervos degolados   na larga entrada da porta) os seus intestinos inverossímil estalar das uvas flambadas pela poeira em encorpados gestos se reproduzia o enigma alguma virtude – desamparo equilibrávamos na finíssima linha Era aquele tempo em que os filhos educavam-se no sacrifício à noite mais morriam que dormiam junto aos cervos devorados ao meio uma arte de largar-se à sorte entre deuses e assassinos e era inverossímil caminhar em meio às uvas e às roseiras encorpados pelos cortes nos pés ...